quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Só queria um pouco mais de tempo

Era uma criança calma. Sem muitos amigos. Tinha alergia emocional. Vivia na companhia constante da televisão. Acalmava tomando mamadeira. Amava o cheiro de chuva. Gostava de tomar guaraná com fandangos. E chorava na hora de pentear os cabelos.
Passava o dia praticamente sem ser notada.
Via seus pais brigando diariamente. Nasceu escutando. E nesse momento queria mais do que tudo não existir. Muitas vezes, desejava que seu pai não voltasse mais pra casa. Às vezes, desejava a sua morte. Ela sabia que aquilo era horrível, repugnante, mas ela não suportava mais. Depois se arrependia, se culpava e se achava a pessoa mais ruim do mundo. Ela sentia tanta raiva dele. Ela queria paz, mas ele trazia tristeza.
Nunca entendeu muito bem o porque de tudo. Por que sua família simplesmente não podia ser como a da amiguinha ao lado.
Não entendia seu pai, e ele era uma pessoa boa. Ela sabia disso, mas não podia entender por que eram tão distantes se moravam na mesma casa. Não entendia por que ele nunca foi ao cinema com ela. Por que ele nunca contava sua vida. Por que ele nunca tinha dito que a amava. Ou se dizia, muitas vezes as palavras mal intencionadas eram repetidas com mais frequência.
Talvez sua infância também não tenha sido nada fácil.
Ela era só uma criança, não podia entender tudo aquilo. Era muito injusto.
Mas, a criança cresceu. Por dentro ainda morre de medo. Ainda não conseguiu quebrar a barreira entre seu pai e ela. Ainda está machucada. Mas chora pelos cantos sempre que lembra dele. E ainda deseja que ele passe uma ou duas tardes com ela, para compensar os meses de sua ausência.
Talvez normal aos olhos de todos, mas não aos meus.

Eles procuram uma diferença já faz tanto tempo. E quem sabe ela esteja presente em você. Ou não.

Pode ser mais uma daquelas falsas impressões misturadas com esperanças que costumo ter por procurar demais.
Me faço enxergar diferenças que não existem, só pra acalmar esse meu desespero. Me engano pra provar que não estou errada, que finalmente encontrei aquilo de que tenho sede. E todas as cenas passam pela minha cabeça.

A alegria novamente dá sinais de sobrevivência e percorrem por mim com gosto de brisa leve indicando que a chuva vem. Indicando que algo acontecerá. O vazio vai se afastando, vai virando lembrança ruim, mas somente lembrança.

Então, os dias passam e o tempo esfria tudo. Costumo a aceitar o tempo como sinonimo de verdade. Através dele, tudo que era pra ser é. Ele passa por cima de toda e qualquer esperança, e apaga qualquer sonho ainda prematuro que, com certeza, não acontecerá. Por mais que você lute por ele. Ele escorre. Quem sabe você é mais um desses sonhos prematuros que não têm força suficiente para existir de verdade. Apenas traz com você uma alegria e uma esperança pequena, do seu tamanho, mas que logo vai embora, como você. E eu voltarei para o mesmo lugar de sempre. Os meus pressentimentos estarão errados novamente. O vazio volta e mostra que nada mudou. Era apenas um sonho prematuro.

Volte a dormir.