Era uma criança calma. Sem muitos amigos. Tinha alergia emocional. Vivia na companhia constante da televisão. Acalmava tomando mamadeira. Amava o cheiro de chuva. Gostava de tomar guaraná com fandangos. E chorava na hora de pentear os cabelos. Passava o dia praticamente sem ser notada.
Via seus pais brigando diariamente. Nasceu escutando. E nesse momento queria mais do que tudo não existir. Muitas vezes, desejava que seu pai não voltasse mais pra casa. Às vezes, desejava a sua morte. Ela sabia que aquilo era horrível, repugnante, mas ela não suportava mais. Depois se arrependia, se culpava e se achava a pessoa mais ruim do mundo. Ela sentia tanta raiva dele. Ela queria paz, mas ele trazia tristeza.
Nunca entendeu muito bem o porque de tudo. Por que sua família simplesmente não podia ser como a da amiguinha ao lado.
Não entendia seu pai, e ele era uma pessoa boa. Ela sabia disso, mas não podia entender por que eram tão distantes se moravam na mesma casa. Não entendia por que ele nunca foi ao cinema com ela. Por que ele nunca contava sua vida. Por que ele nunca tinha dito que a amava. Ou se dizia, muitas vezes as palavras mal intencionadas eram repetidas com mais frequência.
Talvez sua infância também não tenha sido nada fácil.
Ela era só uma criança, não podia entender tudo aquilo. Era muito injusto.
Mas, a criança cresceu. Por dentro ainda morre de medo. Ainda não conseguiu quebrar a barreira entre seu pai e ela. Ainda está machucada. Mas chora pelos cantos sempre que lembra dele. E ainda deseja que ele passe uma ou duas tardes com ela, para compensar os meses de sua ausência.