sábado, 11 de julho de 2009

Querer, poder e vice versa.

Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.
O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. […] Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós…
Querer é mais forte que desejar, pelo menos na nossa língua. Querer é querer ter, é ter de ter. Querer tem mesmo de ser. Na frase felicíssima que os Portugueses usam, "o que tem de ser tem muita força". Desejar tem menos. É condicional. Quem deseja, desejaria. […]
O querer é bonito porque, concentrando-se na coisa ou na pessoa que se quer, elimina o resto do mundo. O resto do mundo é uma entidade muito grande que tem graça e tem valor eliminar. Querer um homem em vez de todos os outros homens, uma mulher em vez de todas as outras mulheres é fazer a escolha mais impossível e bela. Acho que se pode ter tudo o que se quer de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas que não se pode querer senão uma pessoa. Ter todas as pessoas não chega para nos satisfazer, mas basta querer só uma, e não a ter, para nos insatisfazer. É por isso que se tem de dar valor à vontade.



Pequenos temores...


Eu gostaria de ainda ter apenas os receios da infância. Quando meu maior problema era o fantasma que se escondia nos cantos escuros do quarto, e que com uma oração e um cobertor se ia. Adoraria poder ter medo de dinossauros que, misteriosamente, haviam sobrevivido por anos e anos à procura de caças atrativas como seres humanos. Rezo para ficar parte da noite acordada para encenar uma pequena peça no dia seguinte, como antes. Porque hoje, temo o mundo. Temo aqueles que se escondem nas sombras e são reais. Anseio por aqueles acompanhados por minha imaginação todas as vezes em que se distanciam. Me encontro aterrorizada pela segurança falha daqueles por mim amados, e pelo que pode acontecer àqueles que conheço. O futuro me amedronta, e em tantos diversos aspectos, que tenho medo da dúvida. E em meio a tanta apreensão, me perco. Nem sempre consigo salvar meus olhos do cinzento em que se encontram o céu, os rostos, as vozes.
Não encontrei ainda um porquê que me deixasse satisfeita. Não vejo motivos para ser assim. Não há sentido, não há lógica.
E no entanto... hoje me fazem falta os fantasmas, tão inocentes eram. Tentaram me mostrar um pouco do que seria essa parte do mundo, infelizmente, falhando em sua missão.
Ainda me surpreendo amargamente.