
Eu gostaria de ainda ter apenas os receios da infância. Quando meu maior problema era o fantasma que se escondia nos cantos escuros do quarto, e que com uma oração e um cobertor se ia. Adoraria poder ter medo de dinossauros que, misteriosamente, haviam sobrevivido por anos e anos à procura de caças atrativas como seres humanos. Rezo para ficar parte da noite acordada para encenar uma pequena peça no dia seguinte, como antes. Porque hoje, temo o mundo. Temo aqueles que se escondem nas sombras e são reais. Anseio por aqueles acompanhados por minha imaginação todas as vezes em que se distanciam. Me encontro aterrorizada pela segurança falha daqueles por mim amados, e pelo que pode acontecer àqueles que conheço. O futuro me amedronta, e em tantos diversos aspectos, que tenho medo da dúvida. E em meio a tanta apreensão, me perco. Nem sempre consigo salvar meus olhos do cinzento em que se encontram o céu, os rostos, as vozes.
Não encontrei ainda um porquê que me deixasse satisfeita. Não vejo motivos para ser assim. Não há sentido, não há lógica.
E no entanto... hoje me fazem falta os fantasmas, tão inocentes eram. Tentaram me mostrar um pouco do que seria essa parte do mundo, infelizmente, falhando em sua missão.
Ainda me surpreendo amargamente.
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